Partilho que este lugar nasceu há tempos, desde quando eu escutava meu avô falar. Ele falava pouco, mas quando falava, suas palavras encostavam pertinho do coração.

Seu Hildebrando Affonso de André, trabalhou como professor de português, escritor, jornalista e em mais algumas outras profissões que não sei dizer. Foi pai de 06 filhos, avô de 11 netos e bisavô de 02 pequeninos. Foi casado com minha avó, Dona Zuza, durante toda a vida, era o melhor descascador de laranja que eu conheço e repartiu o amor da palavra comigo.

Ele não sabia disso, faleceu antes de descobrir que dividimos a mesma paixão. Lembro-me claramente de ouvir suas explicações sobre a origem das palavras, entoava sempre algo em tupi-guarani ou latim, era bonito de ver.

Gostava muito de ouvir música, ensinou sobre os tipos de pássaros e seus cantares. Fez no quintal, em frente a sua casa, um comedouro, passava o dia espantando gatos e mostrando a cada neto o som dos passarinhos.

Próximo ao natal, qualquer um poderia chegar por volta das quatro da tarde, que com certeza, iria encontrá-lo na cozinha comendo panetone e café com leite.

Com estas memórias criei a Casa de Passarinho, este espaço-nascente que incentiva a relação com as palavras, as brincadeiras que podemos criar, as invenções, as histórias e estórias, e as milhares de possibilidades de conexão que fazemos dentro e fora de nós.

Nós somos guardiões de palavras. E assim como meu avô, acredito que a palavra tem poder. Poder de verdade, daqueles que algo mágico acontece se escolhermos a certa.

A palavra sempre carrega com ela significados por quem a escreve, entoa ou imagina.

Ela por si só é uma combinação de símbolos, mas, se a gente colocar uma pitada de imaginação e romantismo, no sentido romântico de ver a vida, ela se torna ponte com a memória, com o presente e com o futuro.

Palavra é som, é corpo, é linguagem.
Palavra é o sinal que você envia sem nem mesmo dizer.
Palavra é um tanto de alma, um tanto de gente, um tanto de bicho.
Palavra é o concreto e o imaginário.

Por isso, neste espaço chamado carinhosamente “Casa de Passarinho”, convido a todes que querem voar por entre elas para criar seus próprios espaços de convívio e conexão.

Quero abrir mais silêncios entre as falas e evocar a coragem, pois, olha, há de ser muito corajoso para usar a língua do coração.

Aqui, toda a palavra é semente!
Seja bem vindx!

Com amor,

Elisa.