Na quarentena tenho presenteado minha vida com poesia e literatura. Redescobri a pequena biblioteca que criei na sala de casa, e de tempos em tempos, namoro os velhos-novos livros.

Desde que juntamos as trouxas, eu e Cristiano, juntamos também os livros. Senti um êxtase inicial quando vi aquele tanto de palavra organizada, recordei a biblioteca do meu avô, e também, a de meu amigo Jorge.

Tem coisa mais bonita do que uma biblioteca? Eu acho que não.

Enfim, acreditei que os livros dele fossem chamar a leitura, mas não, foram os meus, cheios de poeira, que pediram minha atenção. Comecei a separar ao lado da cama uma pilha com dois ou três que gostaria de finalizar ou retomar. Terminei 02 e recomecei uns 10. Tento ser mais linear, mas sou daquelas que gosta de namorar todos juntos.

Rubem Alves, Manoel de Barros, Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Braulio Bessa são os amores; Maya Angelou, Fernanda Young, Clarissa Pinkola Estés, as amoras.

Estou aqui, bem pertinho deles para não perder a esperança, e ainda, manter o afeto aceso e vivo. Retomar a vida literária, estudar sobre ela e entender sua capacidade de transformação têm evocado a minha própria voz.

Gosto de imaginar cada um escrevendo aquelas palavras, registrando sua visão de mundo.

Reflito sobre o tempo dedicado, sobre os possíveis textos não publicados, sobre seus diários escondidos. Penso nos milhares de cadernos que espalhei na minha humilde existência, imagino o que será deles quando eu me for.

Retomo a escrita com mais força, sento junto de meus semelhantes e compartilho com eles a mesma vontade de ler o que me cerca.

Como diz Antonio Cândido:

 “A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado. A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro a se organizar, em seguida, organizar o mundo.

 O caos originário, isto é, o material bruto a partir do qual o produtor escolheu uma forma, se torna ordem: por isso, o meu caos interior também se ordena e a mensagem pode atuar.

 Toda a obra literária pressupõe o caos, determinada por um arranjo especial das palavras e fazendo uma proposta de sentido

E nesta proposta de sentido, nós nos encontramos.