Eu lembro da primeira vez que sentei para ouvir uma história.

Estava apavorada, muitas perguntas vinham à cabeça para entender os motivos de tal ideia estapafúrdia. A chamada intuição com pitadas de excesso criativo, me levaram até ali. Ah, e também um tantinho de curiosidade.

Sentei, organizei o espaço com chá, um caderno e a máquina de escrever. Comigo estava o computador, caso eu não conseguisse acompanhar o registro no papel, já que escrevo mais rapidamente no teclado.

Minutos depois senta a primeira pessoa, uma mulher bonita de cabelos longos, sorridente. Ela inicia logo perguntando sobre os motivos pelos quais levam alguém a sentar em um espaço público para ouvir histórias, e ainda por cima, a troco de nada.

No mundo capitalista as ações culturais e artísticas são pequenos gestos onde ambos os lados ganham. E isso é bem incomum.

Sem pensar, eu oferecia um espaço de escuta mútuo, algo que ainda não compreendia. Até então, eu era apenas uma mulher interessada em escrever cartas.

Pessoas desconhecidas criando uma ponte entre si através de histórias.

Caminhei no bairro de Pinheiros, Itaim Bibi e Campo Belo, fui para uma fazenda no interior de São Paulo durante um encontro de inovação, recebi dezenas de e-mails de pessoas que queriam compartilhar suas vidas, dores e amores a alguém que nem sequer tinham visto.

Escrever era o objetivo, e ouvir foi o presente.

Numa sociedade pautada na troca monetária, encontrar caminhos para que as pontes se estabeleçam na semelhança, é que faz de nós ainda uma sociedade.

Não houve uma partilha sequer da qual eu não me identificasse, a dor humana, é de fato, humana. Posso não ter experienciado tudo aquilo que chegou até mim, mas sim, é facilmente reconhecida a possiblidade de vir acontecer e isso nos torna iguais.

Aquilo que nos conecta é a própria natureza.

A nossa própria natureza.